Do “produto para cessar” ao controlo das tabaqueiras: como um mercado de redução de danos virou fonte de poder e lucro.
O vaping tradicional como ferramenta de cessação tabágica
O uso de cigarros eletrónicos com nicotina tem demonstrado ser uma ferramenta eficaz para ajudar os fumadores a deixar o tabaco. Estudos revisados pela Cochrane, uma referência em investigação científica, indicam que os cigarros eletrónicos com nicotina aumentam significativamente as hipóteses de cessação do tabagismo em comparação com terapias tradicionais, como adesivos ou pastilhas de substituição de nicotina (cochrane.org).
Além disso, uma análise publicada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) do Brasil revelou que o uso de cigarros eletrónicos foi quase duas vezes mais eficaz do que as terapias de reposição de nicotina para ajudar os fumadores a deixar o vício (ninho.inca.gov.br).
Estes dados sugerem que o vaping tradicional, quando utilizado com nicotina, pode ser uma alternativa viável para a cessação do tabagismo, oferecendo uma redução dos danos à saúde em comparação com os cigarros convencionais.
A evolução do mercado de vaping: da cessação ao consumo recreativo
Originalmente, os cigarros eletrónicos foram desenvolvidos como uma ferramenta para ajudar os fumadores a deixar o tabaco. Contudo, o mercado evoluiu, e os dispositivos descartáveis de uso único, com concentrações elevadas de nicotina, tornaram-se populares, especialmente entre os jovens (canavape.co.uk).
Esta mudança no perfil do consumidor levanta questões sobre os objetivos da indústria e as políticas públicas em relação ao vaping.
A influência da indústria do tabaco no mercado de vaping
Grandes empresas do setor do tabaco, como a Philip Morris International e a British American Tobacco (BAT), têm investido significativamente na indústria do vaping. A Philip Morris tem registado lobistas em vários países, enquanto a BAT adquiriu a R.J. Reynolds para expandir a sua presença no mercado de cigarros eletrónicos (theguardian.com).
Estas aquisições e investimentos indicam que a indústria do tabaco procura controlar o mercado de vaping, transformando-o numa extensão do seu negócio tradicional.
Políticas fiscais e regulatórias: impostos e normalização
Na União Europeia, os líquidos para cigarros eletrónicos estão sujeitos a impostos especiais. Por exemplo, em Espanha, a Lei 7/2024 introduziu um imposto sobre os líquidos para cigarros eletrónicos, com taxas diferenciadas dependendo da concentração de nicotina (boe.es).
Embora estes impostos sejam apresentados como medidas de proteção do consumidor, podem favorecer as grandes empresas do setor, que têm maior capacidade de absorver custos e controlar a distribuição dos produtos.
Além disso, a disponibilidade generalizada de dispositivos descartáveis em pontos de venda como tabacarias e postos de combustível contribui para a normalização do vaping, especialmente entre os jovens (canavape.co.uk).
O vaping como ferramenta de cessação ou estratégia comercial?
O vaping tradicional com nicotina tem demonstrado ser uma ferramenta eficaz para ajudar os fumadores a deixar o tabaco. No entanto, a evolução do mercado, a influência da indústria do tabaco e as políticas fiscais e regulatórias em vigor levantam questões sobre os objetivos subjacentes desta indústria.
É crucial que as políticas públicas se concentrem na promoção do vaping como ferramenta de redução de danos, garantindo que os produtos disponíveis no mercado sejam seguros e eficazes para a cessação do tabagismo, sem promover o consumo recreativo entre não fumadores.


